A Sociedade
Moçambicana de Medicamentos (SMM) terminou o exercício económico de 2025 com um
prejuízo consolidado de 74,6 milhões de meticais, depois de ter
registado um lucro de 639,9 milhões de meticais no ano anterior, segundo o
relatório e contas da empresa disponibilizado pelo Instituto de Gestão das
Participações do Estado (IGEPE).
A deterioração
representa uma inversão de aproximadamente 714,5 milhões de meticais no
resultado anual e ocorre num período marcado pela forte redução das vendas,
aumento de alguns custos operacionais e maior exposição aos riscos de crédito e
de liquidez.
A SMM, empresa
detida a 100% pelo IGEPE, viu as receitas consolidadas provenientes da venda de
bens e serviços recuarem de 340,7 milhões de meticais, em 2024, para 219,8
milhões em 2025, uma redução de 120,9 milhões de meticais, equivalente a 35,5%.
Queda das vendas pressiona resultados
A redução da
facturação aconteceu apesar da manutenção de custos operacionais
significativos. Os gastos com pessoal aumentaram de 33,6 milhões para 35,5
milhões de meticais, enquanto os fornecimentos e serviços de terceiros
subiram de 28,2 milhões para 44,2 milhões.
As amortizações
registaram uma das maiores variações, passando de 41,7 milhões para 89,2
milhões de meticais.
Com a
combinação entre a queda das receitas e o aumento de vários custos, o resultado
operacional consolidado do Grupo SMM passou de um prejuízo de 30,7 milhões de
meticais, em 2024, para 65,8 milhões de meticais negativos em 2025.
Apesar do
desempenho negativo do grupo, a SMM, considerada individualmente, encerrou o
exercício com um resultado positivo de 10,1 milhões de meticais. O valor
representa, contudo, uma quebra de aproximadamente 98,5% face aos 674,7
milhões de meticais de lucro registados em 2024.
Lucro de 2024 foi influenciado por ganho extraordinário
O relatório
alerta para a necessidade de cautela na comparação directa entre os dois
exercícios, uma vez que os resultados de 2024 foram fortemente influenciados
por um ganho extraordinário.
Nesse ano,
tanto o Grupo SMM como a empresa individual beneficiaram de um resultado
extraordinário de 667,4 milhões de meticais, associado essencialmente à
valorização da participação financeira da SMM na Indústria Farmacêutica de
Moçambique, Lda.
Esse ganho não
se repetiu em 2025, deixando os resultados da empresa mais dependentes do
desempenho da actividade operacional.
Caixa da empresa cai mais de 36 milhões de meticais
As contas da
SMM revelam também pressão sobre a tesouraria.
A caixa e os
depósitos bancários do Grupo terminaram 2025 em aproximadamente 10,1 milhões
de meticais, contra 46,9 milhões no final de 2024, uma redução superior a 36
milhões de meticais.
A diminuição da
liquidez ocorre num contexto em que a empresa continua exposta a compromissos
financeiros e enfrenta um aumento dos valores sujeitos ao risco de crédito.
SMM aumenta exposição ao risco de crédito
O relatório
considera significativo o risco de crédito da empresa, tendo em conta que parte
das vendas é realizada a crédito.
A exposição
máxima ao risco de crédito aumentou de 137,4 milhões de meticais, em 2024,
para 157,6 milhões em 2025.
Do montante
registado no final do exercício, 87,2 milhões de meticais correspondiam a
valores de clientes, enquanto 70,3 milhões estavam relacionados com
devedores diversos.
A situação
significa que, apesar de a empresa ter vendido menos em 2025, aumentou o
montante sujeito ao risco de não cobrança, tornando a recuperação dos valores
em dívida particularmente importante para a sua capacidade de gerar liquidez.
Empréstimos ultrapassam 358 milhões de meticais
O risco de
liquidez também surge como uma preocupação nas contas da empresa.
Segundo o
relatório, o Grupo SMM apresentava, no final de 2025, 358,3 milhões de
meticais em empréstimos obtidos, dos quais 284,5 milhões correspondiam a
financiamento de médio e longo prazo associado à PHARMATECH FZCO.
A administração
afirma acompanhar os prazos de vencimento dos activos e passivos e projectar os
fluxos de caixa futuros para garantir capacidade de cumprimento das obrigações
financeiras.
As contas
identificam ainda uma retribuição contingente de 48,6 milhões de meticais,
resultante de um acordo extrajudicial celebrado com o Banco Nacional de
Investimentos em Outubro de 2024.
Auditores não identificam problemas que ponham em causa as contas
Apesar da
deterioração financeira, os auditores independentes não identificaram matérias
que os levassem a pôr em causa as demonstrações financeiras apresentadas pela
empresa.
Na sua opinião,
as demonstrações financeiras consolidadas e individuais apresentam, em todos os
aspectos materiais, a posição financeira da SMM em 31 de Dezembro de 2025, bem
como o seu desempenho financeiro e os fluxos de caixa do exercício.
A administração
afirma, por sua vez, ter preparado as demonstrações financeiras com base no
pressuposto da continuidade das operações e declara não ter conhecimento de
situações que possam colocar em causa a continuidade da empresa num futuro
previsível.
SMM mantém activos estratégicos
O prejuízo
registado em 2025 não significa, por si só, que a Sociedade Moçambicana de
Medicamentos esteja insolvente ou tenha interrompido as suas operações.
A empresa
mantém activos relevantes, incluindo uma participação de 49% na Indústria
Farmacêutica de Moçambique, avaliada em cerca de 1,176 mil milhões de
meticais.
Ainda assim, os
resultados do exercício revelam uma deterioração que ultrapassa a simples
redução do lucro. A empresa registou uma queda significativa das vendas,
agravamento do resultado operacional, redução da disponibilidade de caixa e
aumento da exposição ao risco de crédito.
Para uma
empresa pública considerada estratégica para o sector farmacêutico nacional, o
desafio passa agora por recuperar as vendas, acelerar a cobrança de valores
em dívida, controlar os custos e reforçar a geração de caixa.
Depois de um
2024 marcado por um ganho extraordinário superior a 667 milhões de meticais, a
SMM encerra 2025 com maior pressão sobre a actividade operacional e financeira.
A capacidade de transformar os seus activos e capacidade produtiva em receitas
recorrentes e liquidez sustentável será determinante para a recuperação da
empresa.