A recente visita oficial do Ministro dos Negócios Estrangeiros da
Rússia, Serguei Lavrov, a Maputo, a 9 de julho de 2026, onde manteve encontros
com o Presidente da República, Daniel Chapo, e a sua homóloga Maria Moreno, é
apresentada pelo discurso oficial como um momento de relançamento e reforço da
cooperação bilateral.
No entanto, longe dos salões diplomáticos, o entusiasmo governamental é recebido com forte cepticismo, receio e indignação por parte da academia, da oposição política e da sociedade civil moçambicana.
Historicamente, a relação entre os dois países remonta à Luta Armada de Libertação Nacional, quando a então União Soviética forneceu treino militar e armamento. Contudo, vozes locais alertam que invocar esta "memória afetiva" serve hoje apenas para mascarar uma agenda geopolítica predatória e opaca no continente africano.
Sofrimento, Espionagem e Ingerência na Soberania
Nos corredores universitários, a leitura sobre a atuação de Moscovo em África é perentória. Em declarações à nossa reportagem, O economista moçambicano e docente da Faculdade de Economia da UEM, Roberto Tibana expressou o sentimento de vulnerabilidade que mina a confiança nesta parceria:
"A Rússia tem pautado por métodos clandestinos que colocam em
causa qualquer soberania. Os exemplos estão à vista de todos e amplamente
difundidos pelo mundo fora. Fala-se de ingerência democrática e espionagem
focadas na exploração dos países para o seu próprio benefício é praticamente
uma colonização indirecta se nos dermos conta."
A preocupação é partilhada pelo analista econômico Clésio Foia, que olha para o perfil de cooperação de Vladimir Putin com sérias reservas. Um prestigiado economista moçambicano ouvido pela nossa equipa alertou para a necessidade de prudência estratégica em relação ao tipo de cooperação que Moscovo oferece:
"Os países precisam sim de cooperações, mas esta com a Rússia vejo-a
com muitas reservas. Mesmo sendo histórica, precisamos de estar atentos porque
a Rússia já nos provou não ser um parceiro de confiança. Os seus interesses não
são claros quando o seu maior atrativo é fornecer armas de guerra. O seu
histórico em África, especial nos países ricos em recursos, mostra acções que
condicionam o desenvolvimento. Devemos acautelar-nos."
O Alerta da Oposição e os Riscos de Curto Prazo
A contestação ganha também tom político no seio da oposição. Dinis Tivane, porta-voz do Partido Anamola, aponta baterias ao histórico de ingerência e espionagem da diplomacia russa, usando uma metáfora contundente sobre o risco de alinhar a política externa moçambicana a Moscovo:
"A Rússia é como um cão que você cuida e ele te respeita, mas num
certo dia pode morder-te. Chamo a atenção para isto porque não é por acaso que
em vários países a Rússia não é bem vista. Apesar de parecer estratégica para a
segurança, esta cooperação devia ser levada muito a sério, pois a curto espaço
de tempo pode vir a ser uma experiência amarga. Quando temos um parceiro como
este, o melhor seria suspender ou não renovar qualquer acordo por um certo
tempo."
Entre a Instabilidade Regional e as Alianças Obscuras
Os receios manifestados pelas fontes ganham força perante a atuação recente de Moscovo no continente, marcada pela presença do grupo mercenário Wagner (atual Africa Corps) em Cabo Delgado, Chade e República Centro-Africana, bem como por acusações de desinformação e apoio à manutenção de regimes autocráticos.
Num momento em que a reputação internacional de Moscovo se afunda devido à guerra na Ucrânia, alinhar o futuro de Moçambique a parcerias focadas na militarização e na ingerência representa um risco elevado. Como alertam as vozes ouvidas nesta reportagem, o país necessita de relações transparentes voltadas para o desenvolvimento económico e humano e não de acordos obscuros que arriscam transformar Moçambique num peão no tabuleiro geopolítico do Kremlin.