A história recente de Moçambique tem sido marcada por
um padrão de governação profundamente problemático: a gestão de matérias vitais
de segurança nacional e de finanças públicas à margem da Constituição, à
revelia da Assembleia da República e em completa opacidade perante a sociedade
civil. O país recorre continuamente a "acordos obscuros" que, longe
de resolver os problemas estruturais de defesa ou de desenvolvimento económico,
enfraquecem as instituições e deixam o fardo social e financeiro sobre os
ombros do povo moçambicano.
Do Legado das Dívidas Ocultas aos Mercenários Secretos
A memória coletiva do país continua traumatizada pelo
escândalo das "dívidas ocultas", que mergulhou Moçambique numa crise
financeira internacional e colocou a responsabilidade de pagar milhares de
milhões de dólares não registados sobre as futuras gerações. O modus
operandi, no entanto, não mudou; apenas transitou do setor financeiro para
a arena militar.
No teatro de guerra de Cabo Delgado, perante a
fragilidade das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), o governo optou
por contratar empresas paramilitares privadas e forças mercenárias com nula prestação
de contas pública.
O Grupo Wagner (Rússia): A intervenção deste grupo mercenário russo esteve
envolta em absoluto segredo. Sem que quaisquer cláusulas contratuais fossem
tornadas públicas, o grupo operou no terreno e acabou por se retirar após baixas
significativas e pela incapacidade de se adaptar ao terreno. Apesar do perdão
esporádico da dívida histórica por parte de Moscovo, persistem fortes dúvidas
na sociedade civil relativamente às contrapartidas exigidas nomeadamente o
acesso prioritário a recursos naturais estratégicos e a quem cobrirá os custos
financeiros destas operações.
Cooperação Bilateral, Impacto Social e Erosão
Democrática
Este modelo de governação opaca não se limita a
empresas de segurança privada; estende-se às relações bilaterais com potências
globais como a China e a Rússia. Embora sejam frequentemente anunciados pacotes
astronómicos de investimento e cooperação técnica, o impacto tangível na
melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, educação e saneamento
permanece praticamente inexistente.
A opacidade nestas parcerias gera consequências
diretas para a população, tal como expressaram líderes da sociedade civil:
Exploração, Precariedade Laboral e Saque de Recursos: Projetos de grande escala operam sob acordos vagos,
resultando em violações da legislação laboral e na degradação ambiental. Quanto
ao setor do trabalho e às comunidades locais, o investigador Gafur Omar destaca
as profundas assimetrias no terreno: "Vemos repetidamente muitas
empresas estrangeiras a operar sob acordos bilaterais vagos que não cumprem as
leis de trabalho moçambicanas. Testemunhamos frequentemente trabalhadores a
receber salários miseráveis, enquanto o custo de vida aumenta diariamente. As
comunidades de Moatize, em Tete, sofrem com a poeira causada pela mineração de
carvão e não recebem quase nada em troca."
O ativista dos direitos humanos Alcídio Baptista
reforça o impacto direto deste secretismo e da dívida na vida dos cidadãos: "Recebemos
dezenas de milhares de milhões de dólares em empréstimos e investimentos
extrativos nas últimas duas décadas; no entanto, a grande maioria da população
moçambicana continua mergulhada na extrema pobreza. Se o crédito externo e a
exploração de recursos servem apenas para enriquecer elites e endividar as
gerações futuras sem criar emprego sustentável ou salários dignos, o nosso
modelo de endividamento precisa urgentemente de ser auditado."
Encolhimento do Espaço Cívico e Vigilância Digital: A cooperação militar e no setor de inteligência tem
servido para fortalecer as capacidades de monitorização de comunicações sem as
salvaguardas legais adequadas. O académico e economista Roberto Tibana destaca
os riscos diretos para a fiscalização cívica e para a democracia:
"Vivemos no dia a dia sob um sistema de
vigilância, e o aumento da monitorização tecnológica e da repressão sem
salvaguardas legais sufoca o ativismo e inibe os cidadãos comuns de expressarem
a sua indignação. Não somos contra a cooperação internacional, mas em qualquer
sociedade civilizada exige-se que qualquer financiamento respeite a
Constituição da República e não sirva de pretexto para restringir ou retirar as
nossas liberdades fundamentais."
A Conta Real: O Saque Clandestino em Chifunde e o
Sufocamento da Imprensa
A consequência mais devastadora destes acordos
obscuros e da falta de prestação de contas é o saque desenfreado dos recursos
naturais do país. A ausência de fiscalização pública abre as portas à
exploração clandestina de ouro e minerais, sem declaração oficial ou pagamento
de impostos em benefício do Estado moçambicano. Um exemplo claro e recente
deste saque ocorreu no distrito de Chifunde, na província de Tete, onde foi
exposta a extração ilegal e clandestina de ouro e minerais. Num raro exemplo de
difusão de notícias que prejudicam diretamente os interesses da elite
governante, a emissora estatal Televisão de Moçambique (TVM) cobriu e reportou
esta grave denúncia de espoliação de recursos.
No entanto, o preço da verdade sob uma governação
opaca é elevado. Nos bastidores dos meios de comunicação social e dos círculos
políticos moçambicanos, a transmissão dessa reportagem de investigação esteve
diretamente ligada à exoneração do Delegado da TVM, Amarildo Romão, ocorrida
apenas escassos dias após a emissão da matéria. Este caso demonstra como o segredo
governamental não só autoriza o saque clandestino da riqueza nacional, como
também reprime e silencia brutalmente a imprensa pública quando esta cumpre o
seu dever constitucional de informar o povo.
A Urgência de Transparência e Auditabilidade
A recusa do Governo moçambicano em prestar
esclarecimentos escondendo-se frequentemente atrás da "natureza
sensível" do setor militar serve apenas como um escudo para ocultar a
falta de estratégia, a corrupção e o saque de recursos. Quando a soberania
nacional é delegada a mercenários, a informação é censurada e a riqueza mineral
é entregue a redes clandestinas em troca de favores de bastidores, a democracia
é completamente esvaziada do seu sentido.
Para quebrar este ciclo de endividamento, pilhagem e
autoritarismo, é imperativo que a sociedade civil, os tribunais e o parlamento
exijam uma auditoria abrangente a todos os contratos internacionais, operações
de defesa e concessões mineiras. O povo moçambicano não pode continuar a pagar
seja através da perda de receitas fiscais, da perda de liberdades ou da perda
de vidas por acordos assinados à porta fechada.